Como o setor de transportes está consolidando a sua profissionalização e ajudando a transformação da logística do país a produzir mais e seguir crescendo.
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Foto: Lotus Logística |
A logística nacional, especialmente o modal rodoviário, passa por uma transformação significativa, impulsionada pela profissionalização do setor. As empresas de transportes estão profissionalizando cada vez mais as suas gestões. Isso já acontece em várias transportadoras, algumas inclusive já chegaram na bolsa de valores de São Paulo.
Não é de hoje que o segmento de transportes é robusto no Brasil. Há muitos anos que temos algumas das maiores prestadoras de serviços de carga da América Latina, com 2 mil, 3 mil, 5 mil ou mais caminhões pesados em suas frotas.
Faltava elevar o patamar das suas administrações, treinando desde motoristas profissionais, cada vez mais capacitados e aptos a operar as novas tecnologias embarcadas nos caminhões, bem como os seus quadros administrativos, com executivos capazes de serem interlocutores das grandes indústrias, que buscam mais eficiência para os seus negócios.
No passado, a interlocução com os clientes era centralizada nos proprietários das transportadoras, muitos deles ex-caminhoneiros com visão comercial. Eles foram os fundadores das suas transportadoras. Na maioria das vezes, caminhoneiros com tino comercial que aos poucos largaram a boleia para gerenciar frotas, comprar mais caminhões e contratar outros motoristas.
Histórias como essa contam-se a dezenas, ou até centenas, no segmento de transportes brasileiro. Agora chegou a vez de fazer a sucessão e passar o negócio para executivos bem formados, com cursos de graduação ou pós-graduação em logística e marketing dedicado ao transporte de cargas.
Função específica, que cada vez mais exige pessoal qualificado e de alto nível. Premissa global para o aperfeiçoamento de cadeias globais interconectadas por indústrias dinâmicas que abastecem seus clientes em todos os continentes.
Essas empresas se conectam com sistemas de rastreamento cada vez mais sofisticados, que avançaram juntos com a indústria da tecnologia da informação e a ampliação da cobertura por satélite. Tecnologia que promete crescer mais com o a escalada do envio de novas missões espaciais e satélites por Estados Unidos, China, Rússia, Índia, União Europeia e outros países.
A evolução do rastreamento
Os sistemas de rastreamento são fundamentais para a localização de caminhões e suas cargas preciosas de peças e produtos acabados, que formam cadeias de produção ou chegam as mãos dos consumidores finais nas cidades ou no campo.
Além disso, cresce no meio rural a identificação por códigos de endereçamento postal de propriedades antes isoladas, de difícil localização. Como acontece com o programa estadual desenvolvido pela Secretaria de Agricultura em parceria com startups de tecnologia.
Esse ambiente é primordial para as frotas próprias ou terceirizadas das transportadoras se deslocarem de forma ágil por todo o território nacional. Movimento similar ao que acontece nos países mais desenvolvidos do mundo.
Porém, existe ainda um calo para o segmento transportista vencer que é a baixa qualificação e formação do seu pessoal, que tem causa e efeito na remuneração do setor e no pouco valor agregado que transferem para os seus clientes.
Queixa generalista, que já não encontra eco nos corredores das entidades de classe mais organizadas e nas grandes empresas do transporte que respondem as maiores demandas do setor.
Profissionalização das transportadoras
A época das empresas de um único dono-administrador parece que está acabando à medida que crescem e surgem mais transportadoras profissionalizadas, com capital sólido, recursos humanos treinados e tecnologias apropriadas aos tempos atuais. Muito fruto de fusões e aquisições (inclusive por multinacionais) que aconteceram nos últimos anos.
Porém, o setor reclama que as margens ainda são baixas para investir e planejamentos de treinamento por muitas vezes ficam em segundo plano.
Mesmo assim, encontram-se avanços nos segmentos de transporte dos chamados bens duráveis, automotivo e que fazem a logística do varejo no país. Caso dos grandes grupos atacadistas, das montadoras de automóveis e dos fabricantes de eletroeletrônicos.
Esses grupos só não são mais eficientes por outros problemas crônicos do país, como segurança e falta de investimentos em infraestrutura, que não permitem as melhorias constantes em estradas, grandes obras de engenharia para o modal rodoviário (como túneis, pontes e viadutos) e em telecomunicações. Mas isso é tema para outro artigo.
A logística nacional que funciona, trabalha basicamente com dois sistemas de entrega consagrados: – o milkrun (onde as coletas são feitas em rotas por trajetos pré-estabelecidos); – ou com centros de consolidação de carga, que funcionam como buffers de armazenagem para remessas que irão reunir vários itens em um só caminhão até ao seu destino.
Exemplos da indústria automobilística
No planejamento de rota entra os sistemas de gerenciamento de transporte. Um dos mais conhecidos e usados pela indústria automotiva é o OTM, da Oracle. Já o abastecimento just-in-time vai direto para a linha de produção e normalmente em uma lógica em que a fábrica ou fornecedor de outra indústria tem armazém perto das instalações de uma linha de montagem na qual irá entrar a sua peça ou componente. Caso das montadoras de automóveis.
Problemas de quebra num canal de ligação algumas vezes nascem nas bases de fornecedores da indústria, que podem estar desorganizados, ou com falhas de produção, que resultam em atrasos, ou cargas incompletas no caminho para uma indústria montadora, por exemplo.
Mas as grandes indústrias têm os seus próprios sistemas de gerenciamento de transportes que programam as rotas de forma automática. Um dos mais bem sucedidos é o da montadora japonesa Toyota, que integra toda a sua rede de fornecedores com precisão e eficiência. Considerado um paradigma mundial do setor. Sendo case estudado nas escolas superiores de logística pelo mundo afora.
Mas por trás de tudo isso está a busca incessante pela redução de custos em cadeias complementares. Aqui, tempo e qualidade andam de mãos dadas, a serviço de encontrar resultados em segmentos tão competitivos, como o automotivo.
A influência das embalagens para maior eficiência
Um dos segredos também das grandes transportadoras e das indústrias que performam melhor é a padronização das embalagens que levam partes ou produtos acabados até os seus destinos. Seja uma plataforma de uma colheitadeira agrícolas, ou o console de um computador de uso pessoal. Isso faz uma diferença desde a hora da coleta, no trajeto e no descarregamento dos produtos.
Nisso, as montadoras de carros também estão entre as que apresentam os melhores exemplos. Porque sua gestão logística tem uma lógica direta com suas linhas de produção estáveis, grandes escalas, que não são tão afetadas por solavancos da economia a todo o momento.
Desafios da sazonalidade
Diferente se compararmos a sazonalidade das indústrias de máquinas agrícolas e de construção, e de outras indústrias de bens de capital, como a de caminhões e ônibus. Passíveis de sofrer com picos de safra e cotação das commodities no mercado mundial, ou desinvestimento em um país. Cenários, infelizmente, comuns de acontecer no Brasil.
Por hora, é bom constatar que o setor de transportes está se mexendo, está fazendo a sua parte e, geralmente, tem sido bem amparado pelas associações e entidades sérias que fazem o transporte e a logística brasileira acontecerem.
* Jorge Görgen é jornalista, consultor, profissional de comunicação corporativa com destaque nos setores automotivo, transporte & logística, e agronegócio. Atuou como responsável pela Comunicação Corporativa do Iveco Group e, anteriormente, na CNH Industrial. Premiado duas vezes como Profissional do Ano de Comunicação Empresarial pela Aberje (2018 e 2023), também ocupou cargos de liderança como vice-presidente da ANFAVEA e conselheiro da Aberje. Fale com o Jorge: jlagorgen@gmail.com.
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