As locadoras já respondem por um quarto de todo o mercado automotivo brasileiro e por metade das vendas diretas do setor, volume que as transformou no principal elo de negociação entre montadoras e consumidor final num momento de avanço acelerado das marcas chinesas e de pressão inédita sobre preço e valor residual dos veículos
O diagnóstico foi apresentado na última quarta-feira (23) durante o Rental Mobility 2026, quinta edição do evento do setor de locação de veículos promovido pelo Sindicato das Empresas Locadoras de Veículos Automotores de São Paulo (SINDLOC-SP) na capital paulista, reunindo executivos do segmento de aluguel de frotas. A análise, conduzida pela consultoria K.LUME, especializada em inteligência de mercado automotivo, descreveu as locadoras como o verdadeiro centro de gravidade da cadeia — conectando montadoras, usuários finais e o mercado de seminovos ao longo de todo o ciclo de propriedade do veículo, da aquisição à desmobilização. Por rodarem quilometragens muito superiores às de um consumidor pessoa física, essas empresas identificam falhas técnicas de forma antecipada e em escala, informação que a consultoria descreve como moeda de troca ainda pouco explorada junto às fabricantes, tanto na precificação de lotes quanto na regulação do valor residual da frota colocada no mercado de usados.
É exatamente esse poder de negociação, segundo a K.LUME, que expõe as locadoras aos riscos da atual guerra de preços iniciada há cerca de quatro meses no Brasil por uma das principais fabricantes chinesas, seguindo movimento já adotado por outra grande marca do país. Das 112 marcas chinesas hoje registradas globalmente, apenas doze concentram 80% do volume de vendas — um cenário de forte concentração que a consultoria associa a um processo de consolidação acelerada, com risco direto sobre o valor residual das marcas de menor porte hoje presentes em frotas de locação. Se uma dessas marcas deixar o mercado, alertou a K.LUME, o impacto recai primeiro sobre quem apostou nela em escala.
Esse risco ganha contornos mais concretos quando se observa o perfil da frota chinesa em circulação no país: idade média de apenas 3,34 anos, ainda distante do segundo ciclo de vida útil, período em que bateria, disponibilidade de peças e qualidade do pós-venda serão testadas fora da garantia — variável que pesa diretamente sobre o planejamento de desmobilização das locadoras. A esse fator soma-se a crescente dependência do software embarcado como definidor de valor: veículos que deixam de receber atualizações tendem a perder recursos e apelo comercial mais rápido do que a mecânica sugere, o que passa a exigir das locadoras avaliação técnica sobre a capacidade de atualização de cada modelo antes da compra, e não apenas sobre motor, suspensão ou lataria. A eletrificação reforça esse quadro de transição acelerada: os veículos eletrificados somaram 280 mil unidades identificadas entre janeiro e junho de 2026, mais do que o dobro do registrado no mesmo período do ano anterior, com projeção de superar 400 mil unidades ao final do exercício. Para a K.LUME, esse crescimento figura entre as poucas certezas estruturais do setor para o planejamento de frotas, ainda que a velocidade da transição e o nível de nacionalização da produção permaneçam como as principais incógnitas do horizonte 2026-2032.
Depreciação real de veículos supera em até vinte vezes os índices de tabelas tradicionais
A depreciação efetiva de veículos no mercado brasileiro tem superado significativamente os índices apontados por tabelas de referência tradicionais do setor. Levantamento apresentado por J. R. Caporal, CEO da Mega Dealer e presidente da Auto Avaliar, e Bruno Leite Ferreira, diretor comercial de atacado da empresa, mostra que a queda média de preço ao consumidor nos últimos doze meses chegou a 10,2%, mais do que o dobro da variação média de 4,0% registrada pelas tabelas de referência no mesmo período — e, em casos específicos, a diferença entre o preço real de mercado e a referência tabelada chegou a superar vinte vezes.
Para empresas que gerenciam frotas, a defasagem pode significar perda direta de receita, já que o preço de hoje tende a ser sempre melhor do que o preço de amanhã. Os executivos também apresentaram um conceito batizado de "risco de capital", que resulta da combinação entre a pressão de preço exercida por novos lançamentos, os descontos praticados em veículos zero-quilômetro e o tempo em que um veículo usado permanece parado no estoque sem ser vendido. Segundo eles, esperar por uma proposta melhor tem custo mensurável: um exemplo apresentado na palestra mostrou que, em apenas trinta dias, a combinação entre depreciação e custo financeiro pode consumir mais de R$ 3.600 do valor de um veículo popular, o equivalente a cerca de R$ 900 por semana parado. Para conter esse risco, os palestrantes defenderam quatro frentes de atuação: comprar de forma criteriosa, acompanhar a depreciação de maneira contínua, priorizar o giro do estoque acima da margem obtida em cada venda isolada e reiniciar o ciclo com ativos bem posicionados no mercado.
Outra mudança com impacto direto sobre o caixa das empresas do setor é a reforma tributária. Com a adoção do split payment — mecanismo pelo qual o valor do imposto é automaticamente separado e recolhido no momento do pagamento, em vez de ser apurado e pago pela empresa em etapa posterior —, o recolhimento de tributos passará a ocorrer no ato da transação, e não mais em prazos que hoje chegam a meses, tornando obrigatória a separação clara entre preço da mercadoria e carga tributária nas operações. O modelo já é consolidado em países europeus com IVA, onde o imposto funciona como valor não negociável, embutido no preço final desde a origem. Segundo os palestrantes, o efeito tende a ser mais sensível para empresas menos capitalizadas e para locadoras que adquiriram veículos sob o regime tributário anterior e realizarão a venda já sob as novas regras, cenário que exige acompanhamento próximo de especialistas tributários.
As discussões, promovidas na palestra Gestão Estratégica de Estoque, no âmbito do Rental Mobility, reforçam o papel do evento como espaço de qualificação técnica para o setor de locação de veículos, que reúne cerca de um milhão de veículos em circulação e R$ 104 bilhões em frota em uso no país, mais de 3,9 mil locadoras associadas, faturamento de R$ 17,6 bilhões, mais de 27,7 milhões de usuários e mais de 30 mil empregos diretos, segundo dados institucionais do Sindicato das Empresas Locadoras de Veículos Automotores do Estado de São Paulo (SINDLOC-SP). A Auto Avaliar, responsável pelo levantamento apresentado, atua com seis mil concessionárias e 85% de participação de mercado no segmento, processando mais de R$ 12,8 bilhões em transações por ano.
Rental Mobility 2026 debateu onde está o lucro na locação de veículos
A programação técnica do evento foi aberta com a palestra "A Rentabilidade da Locação: o Lucro Está no Aluguel ou na Gestão do Ativo?", apresentada por Juan Marco, fundador da Locpriced e especialista em precificação para locadoras. O palestrante defendeu que o preço da locação não pode ser definido por percentuais arbitrários sobre o valor do veículo, tampouco por comparação direta com a concorrência, e deve refletir a estrutura de custos e o posicionamento de cada operação.
Com apoio em um caso real de duas locadoras que praticaram o mesmo preço para o mesmo veículo e cliente — uma com resultado positivo de R$ 5.900 e outra com prejuízo de R$ 5.300 no mesmo contrato —, Juan Marco ilustrou como diferenças em taxas de financiamento, deságio na revenda e estrutura administrativa determinam a rentabilidade final, ainda que o preço cobrado seja idêntico. Segundo o especialista, a formação de preço no setor envolve entre 20 e 60 variáveis, com depreciação e estrutura de financiamento concentrando a maior parcela do impacto sobre o resultado.
A palestra também abordou os riscos da projeção incorreta do valor residual dos veículos na desmobilização da frota, apontada como a principal causa de erosão de margem no setor, e a necessidade de capital de giro como fator frequentemente negligenciado pelas locadoras — o que, segundo o palestrante, já levou empresas de grande porte a cortar pessoal por falta de caixa.
Juan Marco também tratou dos efeitos da reforma tributária sobre a precificação, com a mudança da lógica de tarifa fechada para valor com tributos destacados em nota a partir de janeiro de 2027, e apresentou a metodologia PDCA como ferramenta de melhoria contínua da rentabilidade. A palestra integrou a programação do Rental Mobility 2026, evento do setor de locação de veículos que conta com o apoio institucional do SINDLOC-SP, entidade que representa mais de 3,9 mil locadoras associadas e uma frota superior a 1 milhão de veículos em circulação no país.
Rental Mobility 2026
Assessoria de Imprensa
Expert & Cia Comunicação Integrada
Gilberto dos Santos
gilberto.santos@expertecia.com.br

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